Entrevista – Batotô Yetu

O nível de visibilidade que Batoto Yetu atingiu ao longo dos anos, tornou esta associação uma referência na área da divulgação da cultura africana através de crianças e jovens. Com projetos no campo da educação não formal, inclusão através da arte e promoção da cidadania o ano de 2020 apresentava-se promissor. No entanto, trouxe consigo uma das maiores ameaças no campo da saúde. Em tempos de pandemia e confinamento o GIRCC`3º quis conhecer a atual realidade desta associação, numa entrevista que revela fragilidades por não ser permitido ir para o terreno, estar junto das comunidades, mas também uma readaptação à nova realidade, continuando a trabalhar com os parceiros institucionais de forma virtual. A pandemia facilitou a legalização através do Despacho do Imigrante, mas o emprego é a grande batalha para toda a sociedade, e em particular, para as comunidades migrantes. Resiliência é a palavra de ordem no panorama atual e a Batoto Yetu considera fundamental dar visibilidade ao trabalho de todas estas organizações do terceiro setor através da sua divulgação/comunicação.

1 – Queira fazer a breve apresentação da Associação  Batoto Yetu? 

Batoto Yetu (BYP), cujo nome origina do Suaíli e significa “as nossas crianças”, é uma associação cultural e juvenil sem fins lucrativos fundada em 1996 com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Tem como alvo primordial os jovens e crianças interessados na cultura africana, provenientes de meios económicos mais ou menos desfavoráveis. A filosofia da associação baseia-se na convicção de que, independentemente das condições económicas e sociais de cada pessoa, o (re)conhecimento e valorização das suas raízes culturais é um fator essencial para a consolidação da sua autoestima e sentimento de pertença. Até aos dias de hoje, a associação desenvolve vários projetos no campo da educação não formal, particularmente no domínio da inclusão através da arte e de iniciativas de organização comunitária e promoção da cidadania, contribuindo para que estas crianças e jovens se tornem líderes confiantes e responsáveis no futuro e se posicionem do ponto de vista sociocultural na sociedade onde vivem, contribuindo para um país mais intercultural, cosmopolita e tolerante.

2 – Considerando a longa experiência da Organização no terreno e perante o COVID-19, como enfrentam o quotidiano juntos do seu público? 

Neste momento, seguimos as regras gerais e temos os ensaios artísticos, workshops, eventos, tertúlias e visitas guiadas canceladas. Estamos a desempenhar as funções de acompanhamento técnico ao atendimento de imigrantes e seus descendentes através do teletrabalho, recorrendo fundamentalmente ao e-mail e ao telefone dando continuidade a uma parte do trabalho. O maior constrangimento  verifica-se a nível da  proximidade com a comunidade que, devido às medidas de contingência,  sofreu um corte brusco, pois é no seio destas comunidades que se concentram a maioria, dos  nossos projetos. No entanto, como já mencionámos anteriormente, mantemos o contacto com todos aqueles que necessitam via telefone e e-mail, prestando todo o tipo de serviços que estão ao nosso alcance. Todavia, trata-se de  um método de trabalho ainda novo, que pouca  gente entre os nosso utentes está familiarizado, o que se repercute  na redução das pessoas que recorrem aos nossos serviços.

3 – O período de confinamento trouxe algo de novo a Associação Batoto Yetu? Se sim, queira partilhar as novas experiências? 

Continuamos a tentar recriar e ultrapassar as dificuldades impostas pela pandemia com os fracos recursos humanos existentes, seguindo a nossa missão e valores da melhor forma possível, trabalhando sempre em proximidade com os nossos parceiros institucionais e verificando fragilidades, de modo a expor essas dificuldades. À semelhança do que se passou com a crise de 2008, o desafio encontra-se novamente em tentar readaptar-se às condições já existentes, como por exemplo, a adequação das atividades para as áreas de emergência social, não fugindo ao core business da entidade, assim como desenvolvimento de uma proximidade virtual e aperfeiçoamento de mais propostas de apoio que possam concretizar-se em modo virtual.

4 – Hoje, em que consistem os novos desafios para os cidadãos migrantes no País do Acolhimento?

Com a questão do Despacho do Imigrante, alguns desafios acabaram por ser colmatados, uma vez que muitos dos imigrantes que encontram-se irregulares têm a situação regularizada, pelo menos até ao fim deste confinamento e abertura do SEF. Mas a questão do emprego continua a ser um desafio, tendo em conta que grande parte dos imigrantes ou seus descendentes trabalham em áreas associadas ao turismo ou restauração, áreas que estão a ser extremamente afetadas por esta situação.

5 – Que tipo de respostas pretende-se se vai ao encontro do  Batoto Yetu? 

Devido ao confinamento, deparamo-nos com a impossibilidade de manter as atividades e projetos de componente artística  (nacional e internacional)  e social que temos dedicado ao nosso principal público-alvo – os adultos, jovens e crianças. Por exemplo, muitos dos eventos que tínhamos previsto foram cancelados, o que afeta de forma direta a sustentabilidade da associação, por isso estamos abertos a todo o tipo de respostas positivas para que em parceria se possa chegar junto da nossa comunidade.

6 – Até o momento, tem alguma “estória” marcante que queira partilhar connosco, neste processo de COVID-19? 

Até aos dias de hoje, em que nos encontramos confinados, não temos tido acesso a qualquer tipo de estórias. Quando estivermos no terreno e à medida que formos recuperando a normalidade provavelmente teremos um conjunto de estória de inspiração e de resiliência.

7 – A identidade de um povo é caracterizada pela sua raiz cultural. Até que ponto o COVID-19 influência o quotidiano das Comunidades migrantes?

O COVID-19 é um problema mundial que torna-o numa questão transversal, do qual todos sentimos as consequências e influências deste vírus, mas naturalmente há grupos de pessoas ou instituições com menores condições sociais e/ou económicas que estão bastante afetadas pela situação como os lares de idosos, os hostel de abrigo de refugiados, as comunidades ciganas, as comunidades migrantes, entre outros.Em relação às comunidades migrantes, temos assistido a todas estas situações mencionadas anteriormente, a nível nacional. Relativamente ao nível internacional, estas questões refletem-se com outras condicionantes mas afeta primeiramente e, em força, as comunidades migrantes ou as mais desfavorecidas. Esta pandemia poderá dessa forma sensibilizar a que mais pessoas de raiz cultural africana se apercebam daquilo que lhes falta desaprender e aprender, como exemplo das religiões tradicionais, língua, valores, cultura, medicina tradicional, e que as deixa numa situação mais fragilizada. Isto porque na Diáspora e no próprio continente africano existe ainda uma grande necessidade da recuperação desses valores positivos que possam permitir uma maior resiliência a períodos de adversidade como este.A nossa raiz cultural africana, como a de qualquer outro grupo cultural, é aquilo que nos dá imunidade perante situações de violência, opressão e descriminação enquanto grupo. Perdendo essa base (nome, religião, cultura, etc.), as fragilidades das pessoas de origens africana, são maiores onde essas diásporas se encontram (Américas, Europa).

8 – Nesta altura em que as dificuldades são cada vez mais evidentes ao nível Nacional e Internacional, qual a sua previsão para as ONG´s  nos próximos tempos?

Muitas das ONGs terão dificuldades devido à perda de rendimentos com as suas atividades, e das candidaturas a apoios financeiros que são favoráveis para a sustentabilidade das ONGs – existe diminuição de prestação de serviços, do apoio do voluntariado, do número de doações e redução de vários tipos de recursos (humanos, parceiros de projetos, entre outros), uma vez que todas as entidades serão afetadas pelas consequências da crise desta pandemia. A reflexão que temos debatido ultimamente é como é que as ONG’s, com apoios restritos, vão permanecer resilientes perante esta situação? Como se readaptarão de forma a ajudar a comunidade? Porém, à semelhança de períodos de crise anteriores, acreditamos que há entidades que permanecerão, outras encerrarão e, com certeza, algumas novas surgirão.

9 – Como considera a comunicação nas Organizações sociais no processo de integração?

As organizações têm sido muito proativas e tem-se mobilizado bastante de modo a dar resposta aos problemas dos seus utentes, estando sempre a par das situações mais integrantes e também se têm criado grupos de trabalho e de parceria úteis, desenvolvendo várias parcerias em prol da sociedade. As Câmaras e Freguesias também têm tido um papel preponderante na eficácia das respostas das organizações sociais. Portanto o nível de comunicação tem estado a par do nível de exigências que estamos a passar, mas acreditamos que possa ter um reforço desse papel, principalmente no aumento do conhecimento da existência destas associações.

10 – Pensando na Comunicação massiva e na promoção da Economia social e na potencialização do Empreendedorismo Migrante na sociedade, que sugestão de  gostaria de apresentar ao Gabinete Imagem Integrada e de Recursos Comunicacionais para o Terceiro Setor, GIIRC3º?

Como estamos a desenvolver iniciativas , ainda não temos nada em concreto para responder.No entanto, a BYP está aberta e teria todo o gosto em participar em iniciativas que possam vir a decorrer. 

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